Sobre a Viola d’Arco, Caminhos da Viola em Portugal

Breves notas sobre o instrumento Viola d’arco.

Designações alternativas e comuns:

Viola d’arco ou violeta (português), alto (francês), viola (inglês), bratsche (alemão), viola (italiano).

A viola d’arco ou violeta é um instrumento em tudo semelhante ao violino no entanto é um pouco maior que este, tem um registo mais grave sendo a sua sonoridade mais escura e velada.

Apesar de ter uma técnica de execução semelhante à do violino, o seu diferente tamanho e o seu comportamento acústico particular fazem com que se afirme enquanto instrumento autónomo.

É um instrumento detentor de um vasto repertório específico entre obras a solo e de musica de câmara, no entanto devido à sua posição na família do violino, entre este e o violoncelo, adoptou também como suas um grande número de obras escritas para estes dois instrumentos. É por isso muito usual ouvir obras primas escritas para estes instrumentos ganharem uma nova vida quando tocadas na viola d’arco.

A necessidade de uma abordagem especifica no estudo do instrumento, foi definitivamente assumido a partir do fim do sec. XIX com a criação dos primeiros cursos superiores.
O objectivo principal do estudo de um instrumento é a procura da satisfação pessoal daquele que o faz. Esta satisfação pode vir do prazer da execução individual ou então da execução integrada tanto em grupos de música de câmara como em grandes orquestras sinfónicas. A viola tem um papel fundamental tanto no repertório de orquestra como no de musica de câmara o que a torna num instrumento permanentemente solicitado e necessário.

É possível apreender a tocar viola d’arco com o apoio de um professor particular ou ingressando numa escola de música pública ou privada. No regime oficial o plano de estudos de Viola d’arco está divido em três etapas de estudos que estão directamente relacionadas com a idade e o nível de cada estudante.

A primeira e segunda etapas podem ser ministradas em escolas como os Conservatórios de Música oficiais, as Escolas de Música de Ensino Particular e Cooperativo com paralelismo pedagógico ou Escolas Profissionais de Música. A terceira é ministrada nas Escolas Superiores de Música (cursos de musico instrumentista) e em algumas Universidades (cursos da vertente de ensino do instrumento). Estes cursos tem a duração de 4 a 5 anos e alguns deles têm estágio profissional integrado.

Na primeira etapa, à qual se chama Curso Preparatório, podem ser inscritos todos os alunos com menos de 10 anos de idade, sendo a sua frequência facultativa. Na segunda etapa o Curso de Instrumento está divido em oito níveis aos quais de chamam graus.  Do 1º ao 5º grau denomina-se Curso Básico, do 6º ao 8º grau Curso Complementar.

Não há uma idade especifica para começar a estudar viola d’arco, no entanto este inicio deverá acontecer o mais cedo possível. É pois possível começar com 5 anos ou então com 10 ou 16 anos! Por motivos vários é aconselhável que o alunos ingresse no 1ºgrau de instrumento no ano que completa 10 anos de idade. Se iniciar mais tarde, poderá realizar um ou mais exames de acumulação caso demonstre capacidades técnicas e artísticas para tal.

Uma vez que a viola é um instrumento relativamente grande e volumoso, podem ser usados pequenos instrumentos que mais facilmente se adaptam à estatura física dos alunos mais jovens. Apesar do sistema resultar, nem sempre a fraca qualidade dos instrumentos disponíveis permite, como desejado, demonstrar a particular sonoridade da viola d’arco. Tal contratempo deixa de se fazer sentir quando o aluno começa a tocar com um instrumento com as proporções correctas.

Um outro aspecto a reter é a frequência com que se assiste à transferência voluntaria de alunos, dos mais variados níveis, do curso de violino para o curso de viola d’arco. Nestes casos, devido à semelhança da técnica de execução, o aluno é facilmente integrado curso depois de um período de adaptação ao instrumento que pode variar consoante o nível técnico em que este se encontra.

Todos os alunos do curso oficial têm de prestar provas com carácter de exame na transição (Provas Globais) do 2º para o 3º grau,  do 5º para o 6º grau,  assim como no final do 8º grau. Nos graus intermédios os alunos são sujeitos a uma avaliação continua e a provas internas regulares.

Para cumprir os conteúdos propostos no planos de estudos os alunos precisam da experiência e liderança do seu professor mas também de disciplina pessoal e uma boa organização das suas sessões de estudo individual. O apoio e acompanhamento por parte dos encarregados de educação é fundamental, principalmente nos alunos mais novos.

Luis Norberto, Porto, 2011

CAMINHOS DA VIOLA EM PORTUGAL,                       por António José Pereira, Porto, 2014

   A chegada do violetista François Broos ao nosso país logo após a 2ª Guerra Mundial revela-se um marco incontornável no que viria a ser o estimulante desenvolvimento da pedagogia e prática do instrumento. Até então, os lugares de orquestra, de música de câmara e do próprio ensino estavam geralmente confiados a violinistas que, na sua visão do instrumento, levaram a que proliferasse uma prática muito pouco consciente das especificidades e características únicas da viola d’arco. Para além de representar o ponto de partida para o desenvolvimento pedagógico do instrumento em Portugal, François Broos envolveu-se, enquanto homem do seu tempo, no contexto artístico e musical do país, sendo assíduo intérprete e dedicatário de inúmeras obras para viola de compositores portugueses como Armando José Fernandes, Cláudio Carneyro, Fernando Lopes-Graça, Joly Braga Santos e Luiz Costa, no prolongamento de uma carreira internacional em que estreara obras de Darius Milhaud, Paul Hindemith e William Walton. Tendo iniciado a sua estadia pela cidade do Porto e mais tarde fixando-se em Lisboa, François Broos deu origem a uma vasta linhagem de exímios violetistas reconhecidos nacional e internacionalmente – como Ana Bela Chaves, António Oliveira e Silva, Isabel Pimentel, José Luís Duarte, Leonor Braga Santos e Teresa Abreu – cuja influência e princípios constituem ainda hoje uma referência na prática da viola em Portugal.

Após a entrada de Portugal para a comunidade económica europeia, acompanhada de uma crescente mobilização musical do país com a criação de inúmeras escolas e orquestras, reuniram-se as condições para a fixação de um conjunto de músicos de variados países que, com a sua experiência pedagógica e cultura, trouxeram um extraordinário alargamento e enriquecimento à prática pedagógica já existente. Violetistas e professores como David Wyn
Lloyd, Jean-Loup Lecomte, Paul Wakabayashi, Pedro Saglimbeni Muñoz e Ryszard Wóycicki construíram um legado pedagógico e artístico que se estende por todo o país e além fronteiras numa nova geração de instrumentistas que atualmente desenvolvem e estendem a sua prática a um eminente nível. Os departamentos de música das universidades e institutos politécnicos
portugueses contam presentemente com dezenas de estudantes de viola d’arco nos vários níveis de ensino superior, orientados por violetistas cujas raízes se encontram fundamentadas, por um lado, neste legado incontornável e, por outro, numa profunda crença de atualidade, no desenvolvimento de uma identidade e expressão artística assentes nos valores únicos do instrumento. Para além deste enriquecimento do plano do intérprete, mantém-se aceso e em
crescimento o interesse na escrita para a viola d’arco, pela exploração dos seus recursos e características específicas, como verificado pela produção de compositores como Alexandre Delgado, António Vitorino d’Almeida, Cândido Lima, Christopher Bochmann, Eurico Carrapatoso, Pedro Amaral e Sérgio Azevedo.
Assim, e no espaço de menos de um século, os caminhos percorridos pela viola d’arco em Portugal permitiram trazer à luz o seu cariz singular e de excecional riqueza, permitindo-lhe afirmar-se numa identidade nova, consumada e manifestamente reveladora.

António José Pereira, Porto, 2014