Alexandre Delgado – Concerto para violeta e orquestra

Alexandre Delgado – Concerto para violeta e orquestra (2000)

Notas ao programa

A violeta é, historicamente, o coração solitário da família das cordas. Embora o século XX lhe tenha oferecido uma boa vingança com alguns belos concertos com orquestra, ela ainda é bastante menos vista como solista do que, por exemplo, o violino ou o violoncelo.

Sendo o meu instrumento, tentei a minha própria vingança ao escrever este concerto. A obra explora a ideia do instrumento “esquisito” que assume inopinadamente o papel de líder e transmite à orquestra as suas próprias idiossincrasias. Pouco a pouco, a violeta contamina os outros com as suas peculiaridades, que se espalham como pequenos organismos até que a orquestra rodopia sozinha num acesso de múltipla loucura.

A peça desenrola-se em sete andamentos interligados. O primeiro (Piacevole) apresenta dois grupos de ideias, o primeiro nas cordas, o segundo nos sopros. Os outros andamentos são uma variação/transformação dessas ideias: o segundo (Leggiero) usa apenas violetas e segundos violinos; o terceiro (Calmo) recorre a violoncelos em pizzicato, trompas e clarinetes. O quarto andamento tem três secções: a primeira (Moderato) com fagotes, oboés, contrabaixos e violinos; a segunda (Tranquillo) com flautas, clarinetes, trompas e pizzicatos; e a terceira (Vivo) com toda a orquestra, que toca sozinha pela primeira vez desde o início da obra. A violeta fica calada durante este momento declarado de demência, como quem presencia um grupo de crianças mal comportadas. Segue-se a cadência (Ad libitum), em que a violeta busca de novo a sua essência, convocando os seus demónios e a sua energia oculta. O sexto andamento (Lento) traz dois companheiros da solidão da violeta: a poética e lamentosa flauta contralto, o trocista corne inglês. Os outros instrumentos vão-se-lhes juntar num assomo progressivo. O sétimo e último andamento(Presto) traz uma revisão febril e transformada de todo este percurso. Numa coda sussurrante, é como se todos os espíritos que foram convocados regressassem ao seu reino…

Este concerto foi encomendado pelo Festival Internacional de Música de Coimbra e estreado no Teatro Gil Vicente a 20 de Julho de 2000, por mim próprio como solista, acompanhado pela Orquestra Gulbenkian, sob a direcção de Pierre-André Valade. Outras execuções com o mesmo solista: Festival de Música Portuguesa do Conservatório de Maastricht, Orquestra do Conservatório de Maastricht, 2001; Orquestra Sinfónica Portuguesa, José Jamon Encinar, São Carlos, 2001; Orquesta de Extremadura, José Jamon Encinar, Teatro de Badajoz, 2003; Orquestra do Norte, Alexandre Delgado (direcção e violeta), 2005. Em 2007, o violetista Jano Lisboa tocou a obra com a Orquestra Gulbenkian, no âmbito do Festival Música Viva.

Alexandre Delgado

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